A ARTE DE REVIVER MEMÓRIAS

Coloquei no calendário diário um único lembrete: revisitar memórias. O alarme toca silencioso, vibrando as palavras no visor. Vira e mexe eu cutuco uns botões e deixo de lado, mas, quase sempre, eu pauso qualquer momento para revisitar o passado.

A tecnologia é bizarra. São três ou quatro cliques e lá estou eu mergulhada nas lembranças que escrevi numa época que aquela rede social era mais sociável. Vezenquando mastigo alguma amargura tal qual a das fotografias que deixaram de ser reveladas: quanta memória será esquecida apenas porquê não foi registrada?


Observo com atenção cada letra desenhada e cada fotografia exposta. Fico procurando detalhes despercebidos nas entrelinhas e, vira e mexe, esbarro com algum sentimento amornecido. Quando muita sorte, sou capaz de sentir a mesma vibração que outrora, lembrando cada riso e choro contido que me fez rasurar tais memórias.


De tudo que observo (e fico para degustar um tanto mais), a zona mais perigosa é sempre a das fotografias. Vira e mexe percebo meu sorriso tão mudado e comparo a menina da foto com a moça que me sorri no espelho. Surpreende. Tem vezes, maioria delas, sequer me reconheço. Tenho a sensação que tomei conta de mim e das minhas vontades tão mais tarde, que todo meu resto não passa de um borrão de flashes rápidos. Acho que eu só fingi ser quem eu era; embora, vez ou outra, veja lampejar nas bochechas a mesma moça que, do espelho, me olha.


Têm dias que as lembranças tiram poeira e eu fico remoendo tudo que foi dito. Encontrei partes minhas que eu havia esquecido o tanto que eram bonitas e sempre me magoa perceber que fui lapidando e me esquecendo apenas para agradar ao mundo (de quem?).


Nas lembranças que revivi, é insano concluir que tudo que sou e construí só é pelas pessoas que passaram. A mágoa e a tristeza cederam espaço no peito para uma gratidão infinita que só amargura quando concluo que deveria ter agradecido quando ainda havia algum tempo. Tem chovido menos quando (te) agradeço e, quando cai uma lágrima tímida, é mais daquela felicidade boba que já (te) escrevi n’outros tempos.


Andei revisitando esses textos esquecidos. Uma lembrança levou ao baú; resolvi que era hora de abrir; e fui inundada com as palavras mais puras, bonitas e sinceras que já escaparam dos meus dedos. Nunca tinha escrito tanto amor quando escrevi naqueles primórdios. Todo o resto eram apenas invenções ficcionais e um desejo sem fim de viver aquilo que a gente tinha.


Eu mudei, é fato. Tanto nas letras garrafais vomitadas em papel branco, como na postura & no sorriso que carrego. Vezenquando me permito me orgulhar sem modéstia e fico embasbacada quando olho todo o caminho percorrido num lá e cá infinito que desabrochou a coragem de me vestir – e só.


Mudei tanto.


(você vê?)

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