A INVISIBILIDADE DA PERDA AUDITIVA

Uso aparelhos auditivos há três anos e, recentemente, descobri que minha mãe já sabia que eu precisaria usá-los desde os meus 10 anos. Há vinte e quatro anos atrás o uso de aparelhos auditivos era quase um tabu – e, atualmente, para grande maioria das pessoas, ainda é.

Quando soube da minha perda auditiva (de caráter moderado no ouvido esquerdo e leve para moderado no ouvido direito), a primeira coisa que falei para minha otorrinolaringologista foi: faz implante, não quero usar aparelhos, quero que seja completamente invisível.

Na época, a Doutora comentou que, para fazer qualquer tipo de implante, eu teria que danificar totalmente a minha audição e teria uma audição 100% mecânica. Eu, teimosa, insistia: não tem problema, pelo menos assim ninguém vai ver.

Percebe o absurdo?

Eu estava disposta a ficar TOTALMENTE SURDA a ter de usar aparelho auditivo, porquê, na minha cabeça mal informada, era relativamente melhor não ouvir NADA a ter que expor a minha condição para o mundo.

Estudando e pesquisando mais sobre o assunto; e com a oportunidade de conhecer o Museu do Aparelho Auditivo da Direito de Ouvir, pude perceber que a questão da insegurança com o uso dos aparelhos é ainda mais antiga; camuflando os aparelhos das formas mais estranhas e inimagináveis.

Réplica do Trono Auditivo de D. João VI, 1820. Acervo do Museu do Aparelho Auditivo, Direito de Ouvir, Franca/SP.

De trono confeccionado para o rei de forma amplificar o som de seus súditos a brincos que escondiam os aparelhos dentro deles, as formas de camuflar os aparelhos auditivos e tornar a aceitação mais fácil eram infinitas e de longa data.


Quando soube que a insegurança do uso não era mero capricho meu, me senti um tanto mais acolhida e, confesso, levemente frustrada. É um tanto triste perceber que, desde sempre, milhões de pessoas precisam do uso de aparelhos auditivos e, por pura falta de informação (e um pouco de preconceito), se escondem atrás da má audição; aceitando a condição por ela ser menos “vergonhosa” (muitas aspas) do que usar aparelhos auditivos.

Depois de três anos de uso de aparelhos e percebendo uma melhora significativa na minha qualidade de vida, percebo que me sinto muito mais vulnerável e envergonhada quando esqueço de usar os aparelhos ou quando estes acabam bateria e eu ainda estou lidando com pessoas.


A tecnologia atrelada aos aparelhos fizeram com que estes se tornassem cada vez menores, discretos, extremamente confortáveis e incrivelmente bonitos (os meus tem uma coloração marrom perolada que é a coisa mais chique-divina). Além dos aparelhos serem menores, a usabilidade é ainda mais incrível, com ajustes finos aos ruídos externos; conectividade ao celular e uma infinidade de outras ferramentas; como tradução simultânea, contagem de passos, lembretes e muito mais!

No blog da Direito de Ouvir eles trouxeram todo o histórico dos aparelhos auditivos, mostrando fotos de como os aparelhos eram maquiados em outros acessórios, como brincos, cadeiras, colares, óculos e prendedores de gravata. O artigo está imperdível!

É muito louco pensar que a insegurança e a vergonha da má audição ainda seja uma questão impeditiva para a melhor qualidade de vida, sendo que o uso de óculos para pessoas de baixa visão, por exemplo, virou até item de moda.

Te pergunto: assim como você faz teste de visão regularmente, você também verifica a qualidade da sua audição?

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