AMOR(AS) NAS ESQUINAS

Atualizado: 8 de Dez de 2020

Desde que saí do meu lugar-comum, fiquei mais desperta. Meus olhos, curiosos, começaram a esquadrinhar cada milímetro de tudo que me é novo: as calçadas, as estradas, os inúmeros arranha-céus e suas antenas tantas, as pessoas e seus passos – uns com pressa de tudo, outros passeantes como eu –, e as esquinas. Gosto da monteira de encruzilhadas que a cidade oferece, gosto de perceber as infinitas possiblidades de seguir.


Numa dessas esquinas, vi chover um amor antigo no chão. O asfalto muito quente estava repleto de frutinhas vermelhas-e-roxas, caídas e esquecidas por ali. Meu coração pulou na boca cheia de saliva. Esquadrinhei o entorno e ali estava ele, no meio de uma esquina, uma arvorezinha tão diminuta que jamais apostaria que desse frutos – mas dava.

As mãos infantis começaram a catar mais frutas do que conseguiam carregar. Os carros passavam por mim e olhavam estranhos; pedestres passaram por mim e olharam estranhos – e sem parar. Como que alguém vê um pé recheadinho de fruta e segue a rotina como se nada fosse?


Voltei com dois amigos para pegar mais fruta do pé. Na padaria da esquina, peguei emprestado um pacotinho de pão e o enchi com amor, sonhos, expectativas e risos de criança. Ali, naquela esquina, eu tinha doze anos, sonhos imensos e não mais impossíveis, boca tingida de carmim e olhos cheio de fé, de esperança.


Sei lá...


Tem fruta nas esquinas paulistas. E se eu sou capaz de encontrar amoras nessa selva de concreto, então eu posso encontrar, ser e sonhar qualquer coisa.

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