CARTA EM PRETO & BRANCO ♥

para Dan, depois de tanto.


Dia desses esbarrei no meu primeiro livro. Deixei escorrer toda saudade pelos olhos, mastigando algum sorriso bonito que brilhava tímido no canto da boca; meio aliviada de ter encontrado aquelas palavras tão sentidas e tão sinceras. Num impulso salgado, reuni todas as músicas que mencionava e criei a playlist que leva o único nome possível: “para apequenar o coração”. Parece um tanto masoquista, eu sei, mas é a ela que tenho recorrido quando sinto essa urgência insana de me deixar chover.

Não me recordo, amigo, quando foi a última vez que te escrevi. Eu estou morando naquela selva de pedras e toda vez que me vi caminhando para o interior, passei pela sua cidade... Meu coração ficou do tamanho de uma ervilha murcha. A saudade belisca de uma forma diferente. Já são quase 14 anos desde que você não veio & eu ainda vejo teu rosto muito moreno de barba muito cheia com seus 23 anos, estacionado no tempo da lembrança – que não passa nunca.


Vira e mexe os “ses” pinicam na ponta da língua e tem gosto amargo. Se você tivesse chego e tivesse ficado, hoje você teria 36 anos e me pergunto se sua barba estaria grisalha, se seu cabelo seguiria tão cheio, se você teria casado ou mudado para o outro lado do mundo; vivendo a vida que sempre quis. Eu tento te envelhecer na memória, mas não consigo não te ver menino, cheio de sonhos & planos & vontades de mudar o mundo com as próprias mãos.


Desde que te lancei no mundo, no longínquo 2013, nunca mais te sonhei. Quando te trago para a memória, é uma busca incessante de te encontrar de alguma forma. Houve o tempo que eu conversava com você todas as noites e você calava minhas interrogações infantis, sussurrando coragem no vento... Eu quase sentia tua mão roçar leve na minha.


Hoje eu queria tua mão apertando a minha, teus braços esmagando minhas costelas & despenteando meus fios loiros com os dedos. Queria sentir a imensidão dos teus olhos de chocolate mergulhados nos meus, dizendo aquelas sinceridades que palavra nenhuma é capaz de dizer. Eu gostava da versão de mim que você via – e acho que hoje, finalmente, me tornei parte dela.


Estou me mudando de novo. Será que você sabe? Tenho receio que a gente tenha se perdido por você não saber mais onde me encontrar; mas parte de mim tem ciência que é birra pensar assim. É tempo de arrumar malas outra vez e recomeçar n’outro canto e eu me sinto meio em frangalhos. Tenho conversado com meia dúzia de gente, tenho deixado algumas pessoas passarem pela armadura que construí e me assusto quando me percebo chorando na frente delas. É novo para mim também...


A chuva cai mansinha enquanto te escrevo sem pensar. Tem Renato Russo cantando o clichê do amor à tarde; e tudo aqui parece cedo demais. Talvez seja. É cedo demais para ir embora, tarde demais para tudo de novo. Sempre dúbio, vê?


Hei, me conta também de você?

Ainda transborda saudade,

Mafê.

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