deixa o dedo tamborilar #001

textos soltos, sem pensar.

Viveu uma vida inteira dentro de uma bolha quentinha, confortável e cor-de-rosa. Desenhava a rotina de forma fluida; fácil e indolor. Não pensava muito nos amanhãs, embora fizesse planos. Não pensava muito no depois; embora sonhasse alto. A vida foi desenrolando: meio destrambelhada, meio caos, meio improviso. Desenhou o próprio atropelo e, num dado dia, entre um céu muito azul e infinito, percebeu-se só. Miúda. O mundo agigantava e ela diminuía. Sentiu na pele o tamanho da fragilidade da vida e tudo mudou de sentido... Reaprendeu a rezar. Pegou mania de riscar o asfalto olhando o horizonte e percebendo as cores do cotidiano. Via poesia tatuada nos concretos; via a brisa primaveril nas tardes frias de inverno, que balançavam as folhas numa valsa melancólica; via o céu estender diante dos olhos. Vezenquando chovia – ela também. Vezenquando a tempestade chegava – nela também. Vezenquando tudo ruía e desmoronava – ela também. E vezenquando tudo era paz e mar manso, sereno como deve ser... E ela... Ela também. E se agigantava no mundo que ficava pequeno. E improvisava um riso e refazia planos e pincelava cores na bolha estourada, protegendo a si mesma como podia.


“A vida é frágil”, repetia.


E é.

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