E POR FALAR EM SAUDADE

Dia desses uma pessoa se mostrou interessada em ouvir sobre meus livros e eu deixei cair mais meio centímetro de armadura. Contei sobre todos eles, numa ordem pouco cronológica, tentando lembrar de todas as antologias que tive o prazer de participar. “E teu primeiro livro, como foi?”. Narrei todo o processo da editora, das minhas euforias e do encantamento de chegar nesse lugar que julgava distante e não pra mim.

Colecionava alguns verões que eu não mencionava a Saudade em Preto e Branco que virou livro e quando o moço questionou sobre o que se tratava a história eu percebi mais armadura se desfazendo, deixando uma garoa cutucar meus olhos e ficar repousada ali.


Normalmente sou sucinta: cartas para um amigo que partiu cedo demais; e aí mudo o rumo contando sobre as músicas citadas no livro e os dentes-de-leão impressos naquelas páginas amarelas. Mas perdida no calor do braço roçado com aqueles olhos escuros me encarando, genuinamente curiosos, sem querer, eu me vi desnudando a saudade e contando sobre você, sobre nosso encontro na fila do cinema, sobre as tardes de violão, sobre o fatídico dia que você comemorou o teu carro novo. Engasguei quando finalizei a história: ele ia de carro para Santa Catarina, mas ele nunca chegou.


Ali naquele sofá deixei a saudade cair no colo e vi as gavetas abrirem com doçura. De repente eu olhava o cachorro em cima do telhado, via uma estrela brilhando longe e a noite taciturna tinha a cor da tua barba escura & teu eterno rosto de menino. Eu sentia uns dedos acariciando o dorso da minha mão enquanto narrava você... Fiquei agradecida, sabe, Dan?


Eu te guardei com tanto zelo nas palavras que te escrevi; te deixei tão escondido nas lembranças, sem querer, com o passar do tempo, que me sentir nesse lugar confortável para abrir de leve o peito me inflou gratidão. Quanto tempo faz que eu não sopro a poeira das lembranças tuas? Olhei instintivamente o calendário e era dia vinte. Quanto tempo faz que eu já não lembro mais teu vinte e quatro de janeiro?


Uma semana e sigo lendo as palavras daqueles tempos sombrios; bordando um sorriso salgado no canto da boca. Tem playlist pra cutucar as memórias e de repente me vi cantando Dona Cila, da Gadú, de uma forma branda, contrastando com a ira enraivecida que rasurei pedindo um jeito de estar sem você, pois não parecia possível.


O tempo passa, Dan, e perdi a conta. Aprendi o caminho e o desapego, mas percebi que gosto de me ver descamar e narrar a tua ausência (que ainda faz silêncio por todo lugar).


Daqui,

Fê.


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