ELE ME DEIXOU CICATRIZES

Eu me arranquei de perto dele com uma coragem maior que o mundo. Quando ele dizia que eu não mergulhava fundo, acho que, secretamente, no íntimo da minha intuição, eu já sabia que esse mar era raso demais para entrar. Ainda assim, fiquei. Molhei meus pés, sentei na areia fofa, inventei de olhar para o mesmo horizonte e; ressaca após ressaca; deixei apanhar pelo oceano revolto.

Fui embora sem alarde. Em silêncio, refiz minha rotina; reescrevi novas histórias. Queixo erguido, coração em paz. Finalmente eu provava a calmaria de um amor tranquilo – e o amor era o meu, o próprio. Fluía a valsa de ser só, sem me sentir sozinha.


Desenhei meus caminhos entre um eterno lá-e-cá que ainda me desafia. Desaprendi a fazer morada e hoje sou nômade nos meus próprios sentimentos... Quando vi alguém chegar, criei mil barreiras possíveis; vi latejar mil dores que eu, na pressa de ser paz, não tratei, não curei, não deixei sentir.


Foi ele quem me deixou cicatrizes.


Quando percebo, tenho a respiração fraca & entrecortada, um peito palpitando ansioso e o sal queimando nos olhos. O borrão que se transformou minhas memórias, sangra. Tem apertos e puxões e carinhos que me assustam e eu percebi que boa parte da minha solitude é reflexo da solidão amedrontada de confiar nas pessoas.


Carrego comigo lembranças que não dividi com ninguém. Dá vergonha mostrar os calos criados pelo mar que eu mesma quis entrar; embora parte minha saiba – e saiba bem – que não tenho culpa alguma das ondas que me batiam.


A coragem que me fez fluir, também me vestiu medo.

E eu, marinheira, talvez não saiba mais nadar.

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