EU AINDA NÃO 'TÔ PRONTA

Virava folhas e encerrava livros sem muito alarde. Entendia o fim dos ciclos, amontava algumas lágrimas e lamentava os finais, mas sempre era tempo de recomeçar de novo, de abrir outra história, percorrer a vida com outros personagens. A analogia com o livro parecia fazer sentido na minha mente caótica, mas aqui tem tudo sido tanto caos que, mesmo o melhor dos sentidos, sai sem qualquer coesão.


Ensaiei frases bonitas para dizer frente ao espelho e vesti armaduras para seguir a rotina sem me estender a gentileza de parar, sofrer e me escutar. Vivi tão vomitada de positividade tóxica que a repetia sem parar num eco frouxo. Transformei-me num emaranhado de palavras iguais, engolindo choro e lustrando o ego — apenas porque me fizeram acreditar que deveria ser assim.


Eu não me permiti sofrer. Entre emendar fins e recomeços, eu não deixei o hiato saudável do "tempo de respirar". Fui atropelando os enredos e me enfiando nas rotinas como dava, como podia, como achava ser correto, mas não me permiti parar. Chorar. Sofrer. Lamentar. Me entender. Eu sentia o medo chegando pelas beiradas e empurrava o medo longe. Fui mergulhando em pilhas e mais pilhas de trabalhos, projetos e ideias, apenas para ocupar minha mente com qualquer relevância que não fosse eu mesma e as verdades que negava veemente.


O fato é que eu ainda não 'tô pronta.

Não 'tô pronta pro novo. Tem resquícios demais de uma história mal contada e mal finalizada, com pontas soltas demais para simplesmente engolir os pontos finais, virar a página e (re)começar outra história.


Não 'tô pronta pra me ver despida e vulnerável, assistindo meus sentimentos sendo mastigados e enrolados junto de lençóis frios. Não 'tô pronta para abrir meu peito e mostrar minha coleção de cicatrizes, tampouco estou pronta para arrumar novo espaço e dar morada pra alguém ficar.


Não 'tô pronta.


Ainda tem bagunças emocionais demais para lidar e uma sujeira infinita que varri para baixo do tapete, ignorando o fato de que o esconderijo mais parecia a cobra que comeu o elefante do pequeno príncipe.


Não 'tô pronta. Achei que sempre estive, mas não 'tô pronta... E me assistir soltar essas palavrinhas marotas, no meio de um choro amanhecido, esmagando minhas pernas para fingir um abraço apertado, me fez olhar para o espelho e não vomitar mais aquelas positividades tóxicas que me obriguei engolir por tanto tempo; vendo o espelho me olhar de volta, cúmplice, menina, vulnerável, assustada... e em paz. Serena.


Eu tô bem. Só não 'tô pronta...






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