ME DÊ O DIREITO DE TER DIREITOS

Dia desses fui à uma rede de lojas que têm milhões de coisas. Eu só precisava ir buscar uma encomenda e sair. Gentilmente me dirigi ao fim da loja, onde se instaurava um mini-caos; com profissionais perdidos, fila mal estruturada e aquele empurra-empurra de pessoas querendo um espacinho no balcão.


Deixei meu ticket nas mãos e, munida da paciência que o domingo pede, me apoiei no canto, esperando a minha hora de ser atendida. Uma mulher estava visivelmente alterada e nervosa com a demora do atendimento, o rapaz, ao meu lado, que havia chego pouco tempo depois, tentava ajudar de toda forma possível e eu, gentilmente, tentei colaborar também.


Dado momento, outro funcionário veio prestar ajuda e perguntou, no caos que era a não-fila, quem estava na vez. Prontamente ergui meu ticket e, de forma rude, o rapaz ao meu lado elevou o tom, dizendo que ele quem já estava na fila antes. Não fazia diferença, mas eu não gostei do tom de voz e comentei que não, que eu tinha chego antes, e desenhei todo o roteiro que havia se passado e enfim.


Eu sou paciente quase sempre. Não gosto de brigar, de levantar voz, mas me incomodo com acusações injustas. O rapaz, além de furar fila, seguiu se achando no direito de me diminuir, me chamando de mal educada, que era um absurdo eu querer fura fila na frente de uma mãe (a esposa dele chegou nesse momento, puxando o filho – três anos, mais ou menos – para o colo); dizendo que ela tinha direito.


“Direito por direito, eu também tenho”, resmunguei.


O rapaz ofendia. Num tom irônico de deboche, dizia que eu era extremamente mal educada por querer furar a fila frente a uma mulher com criança; que mesmo que eu estivesse na vez, ele teria direito a preferencial.


Minhas mãos tremiam uma raiva-tristeza desconhecida. Com a voz embargada e o choro segurado a duras penas, senti as bochechas corarem e as palavras se atropelarem.

Explodi.


Direito por direito, eu também tenho!


Com a cara ainda mais debochada, como se eu estivesse falando um absurdo, eu me assisti corar. Eu tenho deficiência auditiva, tenho tanto direito quanto você. Ele seguia irônico e impassível – e eu me vi obrigada a tirar meus aparelhos para poder provar um direito que nunca nem quis pegar.


O moço seguiu com a mesma cara, embora parasse de me olhar. A esposa e a criança saíram de perto, ela parecia encabulada. E eu fiquei ali, com o ticket tremendo nas mãos, os olhos querendo chorar num misto de tristeza, vergonha e raiva.


Eu não devia sentir vergonha, sabe? Ao ter minha educação ofendida por uma questão criada, me vi extremamente vulnerável ao expor minha condição que, de tão invisível, parece não ter direito algum.


Foi assim com a vacina; foi assim com a compra numa loja bagunçada.


E será assim até quando?

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