O PÂNICO DA SURDEZ

Era inverno e o consultório parecia grande demais para uma Mafê miúda & assustada. Eu segurava nas mãos um pesado pedaço de papel. Nas letras garrafais da médica, uma frase curta de duas palavras: DEFICIENTE AUDITIVA.

Fiquei olhando o papel com um nó gigante no meu estômago. Enquanto a Otorrino me falava sobre aparelhos auditivos e marcava horário para a próxima semana, eu segurava a tempestade que estava prestes a se formar. Saí do consultório carregando aquele pequeno pedaço pesado de papel. Aquela frase pequena e gigante... DEFICIENTE AUDITIVA.


DEFICIENTE.


Eu, deficiente. Eu, pessoa com deficiência. Eu, parcialmente surda. Eu, precisando de aparelhos auditivos. Eu, aos trinta e um anos, nova – e deficiente.


Quando entrei na segurança do carro, longe de olhares intimidadores e cheios de dó, eu chorei copiosamente. O soluço se atropelava em outro e logo aquelas palavrinhas ficaram úmidas e doloridas. Meu corpo todo era um pânico infinito, um medo sem fim de ficar totalmente surda, uma falta de assimilar o que eu tinha acabado de ouvir.

“Você é pessoa com deficiência, Maria Fernanda. E precisa do auxilio das próteses auditivas para ter uma melhor qualidade de vida. Pode ser que isso se agrave com o tempo...” e a partir daí, eu não ouvi mais.


Meu avô era surdo. Ou parcialmente surdo, eu já não sei dizer. Usava um aparelho bege, grande e feio, em ambos os ouvidos, acho. Vira e mexe ficava aumentando e abaixando o volume e, mesmo com o auxílio, vivia sem entender muita coisa.


Foram quarenta minutos dentro do carro, debaixo de uma chuva particular, até acalmar e ir para a casa. Como eu iria contar para minha família que precisava de aparelho auditivo? Como eu encararia as pessoas? Como eu, tão nova, tinha ficado, de repente, tão tão tão idosa e surda?


Num piscar de olhos, uma consulta de rotina tinha se transformado no meu maior pesadelo. Na vergonha de ter sido rotulada como pessoa com deficiência. A autoestima despencou exponencialmente e tudo era medo. Eu senti vibrar em cada pedaço de mim o pânico da surdez. Eu tive medo de ficar presa ao silêncio; eu tremi por não saber o quanto eu já não escutava e o que seria de mim no futuro.


Eu quis fugir. Quis não precisar voltar para aquele consultório e quis não precisar usar aparelhos auditivos. Eu não queria que ninguém soubesse.


No caminho pra casa e na semana que desenrolou, eu me convenci, incansáveis vezes, que eu ouvia muito bem, obrigada. Que eu tinha o direito de ouvir como eu bem entendesse e que, do jeito que estava, estava bom pra mim.


Por duas vezes quase desisti de ir testar o aparelho auditivo... Mas ainda bem que segui.



Começou então uma nova saga: pouco visível como era, ninguém precisava saber... Precisava?

71 visualizações

Posts Relacionados

Ver tudo