OS DIAS ACUMULANDO POEIRA

feat Giselle Ferreira

Assisto as horas passarem e os dias acumularem poeira. O calendário riscado na parede da sala denuncia o tempo desatento: ainda data 2017, anos antes do mundo virar caos e premeditar o insucesso. Apesar de tudo, vejo nas folhas riscadas memórias tão reais e atuais. Tatuado em linhas borradas, frases soltas de sentimentos imortais.

Um círculo ainda marca o dia vinte e seis de agosto. A tinta vermelha chama atenção para todos os planos que pensei serem eternos e todos os sonhos à espreita do próximo ano, da próxima lista, da próxima promessa vã. Quem desmoronou mais – os sonhos ou eu?


Folha por folha, vou atualizando o calendário. Arranco sem pesar aquelas datas vencidas, esfregando na minha cara as expectativas que não deixei realizar. Eu tinha tanto para ser e fazer; e não sei como que permiti me deixar para lá. Foi fácil – mas, de forma alguma, indolor.


Decidi não comprar mais calendários, não rabisquei mais datas, não uso mais tinta vermelha. Me deixo levar pelos dias e pelo vento que, vez ou outra, até para de soprar. Pauso mais, silencio mais, sou mais. Agora nada acusa meus abandonos e frustrações; guardo pra mim. Ainda sonho um bocado, ainda coleciono planos que deixei pra um dia, mas não me cobro tanto mais.

Quem diria que para caminhar melhor bastaria não saber onde estou indo?

Observo e só. Os dias vão seguindo, os calendários criando poeira. O caminho tem se expandido sob meus olhos atentos. O peito ainda comicha aqueles sentimentos perdidos e os sonhos esquecidos, mas de forma branda. Eu vou. E sigo. E não desmorono mais...

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