ROUPAS & PALAVRAS ESPALHADAS PELO CHÃO

Lembro o dia que me despedi pela oitava vez consecutiva.


Ensaiamos o até logo por horas cheias, deixando os compromissos para mais tarde, enroscando embaixo do edredom qualquer sintoma de saudade que, ansiosa, esgueirava pelos cantos. Entre um beijo e outro aperto, o adeus pendia nos lábios, transformando-se em riso tímido quando percebia seus olhos inteiros mergulhados nos meus. Tinham sede de qualquer coisa que não arrisco dizer pelo horário; tinham urgência e algum resquício maroto de tristeza cada vez que o celular gritava uma rotina que ignorávamos com a maestria de amantes.


Os lençóis amarrotados tinham o cheiro das nossas digitais; o quarto escuro segredava sussurros afoitos e o tsunami, de roupas & palavras espalhadas pelo chão, denunciava um tanto de pressa; um tanto de amor – ainda que pouco pudico. Nossos dedos formavam um nó bem dado; apertando e afrouxando na mesma intensidade que o respirar, numa valsa ritmada que fundia mais para perto nossos corpos úmidos que não queriam separar...

Meio beijo no pescoço e o adeus repousava ali, com tua voz rouca descansando na minha clavícula. Meu ombro ossudo te servindo de travesseiro enquanto meus dedos se dividiam entre rabiscar tuas costas e teus cabelos espessos; buscando decorar & devorar cada centímetro de tua pele. O teto era imensidão sobre nossas cabeças e a fraca luz do dia cinza não denunciava o tempo.


“Que horas são?”, perguntou você, entre um adeus e outro, me fundindo mais perto.

“E importa?”.



(...)



Tem sempre espaço para outra despedida...

56 visualizações

Posts Relacionados

Ver tudo