SINTO FALTA DAS PAIXÕES

♫ APERTA O PLAY


Sinto falta das paixões avassaladoras que me roubam o apetite. Venho sentindo o furor queimando nas beiradas; mas aprendi a ignorar com a maestria de um poeta amargo: finjo que não é comigo – e segue o baile. Não sei bem lidar com esses sentimentos dúbios que há tempos não sentia. Com toda sinceridade que me cabe, realmente escolho, todo dia, não abraçar algumas verdades implícitas. Ainda é cedo, não é?


Dia desses acordei com o rosto sereno pulsando nítido na minha retina. Ele me escapava de um sonho bom, mas seguiu refletido no travesseiro vazio que abraçava ao meu lado. Assustei quando percebi que a miragem era vista a olhos nus, dispersos da preguiça matinal e minimamente arregalados. Um oásis ao alcance das minhas mãos e, de repente, tudo era um tsunami de emoções estranhas.

Com as pernas servindo de consolo, abracei a mim mesma, tentando catalogar e rotular os sentimentos. Não sei se mastigo alguma saudade ou alguma paixonite, mas não posso negar o desejo da menor proximidade possível. Sei lá, vezenquando o corpo inteiro pede pelas urgências pouco ensaiadas, na coreografia ritmada de respirações em êxtase; vezenquando me bate uma vontade de tagarelar sobre a vida & deixar o ouvido mergulhar n’algum sotaque arrastado; e, uma única vez — que me pegou despreparada e me assustou a ponto de desenhar essas palavras — vi minha imaginação traiçoeira colocando nos meus travesseiros um rosto que dorme manso.


Mea culpa.


Meu sono leve e a cidade barulhenta me acordaram cedo e eu conto em segredo que adquiri um mini hábito que me faz amanhecer sorrindo: vê-lo dormindo, com seus cabelos cheios tingindo escuro uma fronha branca e sua respiração lenta subindo-e-descendo num ritmo que me tranquiliza. Registrei o momento e me escondi na menor possibilidade de flagra, fingindo um sono que não tinha; mordendo os lábios para não escapar um riso sussurrado: “como ele é bonito, esse moço”.


Naquele caos silencioso que é minha cama, com o sonho escapando dos dedos e o rosto refletido no vazio, o oásis me inundou de sentimentos estranhos que tenho ignorado com a falsa maestria de um poeta amargo; tentando fingir que não é comigo, mas, poxa vida, como é bonito esse moço.


Como é bonito.


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