TALVEZ VOCÊ ME ACHE DESINTERESSANTE

Eu não tenho muito a oferecer. No meu corpo esguio e desengonçado, cabe alguns sonhos amarrotados e alguns rabiscos que desenhei muito tarde; mas sobra força de vontade e desejos maiores que o mundo. Tenho acordado cedo e dormido pouco, mas confesso que gosto de horinhas de preguiça e dos dias cinzas e mansos. Gosto de me enrolar no edredom e no abraço; divido uma xícara de café e um amasso; mas não tenho muito para te oferecer.

Talvez você ache desinteressante minha visão inocente do mundo. Tenho mania de crer e confiar no melhor das pessoas. Insisto deixar os pés no chão, mas entendi que sempre tenho o resto do meu corpo nas nuvens; então posso ser um tanto otimista, sonhadora, artista. Talvez seja desinteressante meu silêncio nas conversas – gosto de ouvir; gosto de sentir as palavras.


Não tem muita coisa do lado de cá. Tem meia dúzia de planos e alguma mania boba de fazer cócegas e esmagar. Sei lá, eu gosto do toque e talvez eu seja dessas pessoas que encostam o tempo todo enquanto fala. Gosto das vibrações da pele; gosto do tato; do arrepio. Quando a fala é pouca, eu preciso ouvir com as digitais.


Nos dedos deixo escapar minhas maiores verdades; e talvez você não goste das minhas sinceridades em letras garrafais. Derramo segredos & vontades nas entrelinhas dos pontos finais amarrados nas vírgulas – nunca nada termina; sempre tem um quê, um quero mais. Gosto das querências infinitas.


Talvez você se incomode com meus olhos arteiros, certeiros e curiosos. Eu gosto de ver o mundo, de esquadrinhar esquinas, cantos, minúcias. Me perco enquanto vivo e é bem provável que, talvez, você ache desinteressante o meu péssimo hábito de me distrair nos detalhes enquanto você conta algum passado, me desligando do fio da conversa; mergulhada na delícia da imaginação cheia de malícia.


Talvez você me ache desinteressante por esquecer do horário. Gosto do ritmo ditado pelas minhas próprias vontades & pelo meu senso de urgência. Me demoro no café da manhã e não percebo as horas quando estendo o papo e gosto da companhia; sinto muito por isso. Tenho pressa do trivial, mas me enrolo no que gosto; prolongo quando quero e posso – e sempre vai ter tempo de ficar para mais um café, para mais um episódio, para mais um abraço, para outra despedida.


Eu não tenho muito para oferecer, salvo meus impulsos. Pulsa alguma pressa de querer agradar. É desinteressante meu clichê de abraçar pelas costas e depositar um beijo no pescoço. É desinteressante meu hábito do carinho na nuca, enquanto pneus riscam asfaltos com destino a nenhum lugar. É desinteressante minha dança desritmada quando cozinho; com playlist aleatória que, tal como eu, também não tem muito sentido.


Talvez você me ache desinteressante por não saber sustentar o olhar. Tenho a mania da timidez quando algo me intimida & minha voz treme e minhas mãos se assustam e eu acelero e falo sem parar. Talvez seja desinteressante meu falar sem freio; sem fôlego; sem rumo.


Eu sou só uma garota procurando meu lugar. Talvez você ache desinteressante meus recomeços. Meu coração é de moça e não tem muito pra oferecer... Mas é tudo que tenho, é tudo que ofereço; é tudo que sou.


E se não basta, também não me interessa;

Sinto muito.

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