Um combo todo errado

Envelheci.


Não sei quando que o espelho mudou de cor e passou mostrar traços não-tão-bonitos. Talvez tenha sido gradativo e, por isso, não tenha percebido a gritante mudança; mas se olhar fotos antigas e olhar para o agora, a verdade é única e inviolável: EN-VE-LHE-CI.

O rosto tá apático e opaco. Falta rubor, sabe? Mesmo o excesso de maquiagem não é capaz de camuflar a palidez da pele, a rigidez dos olhos e os vincos flácidos. De uma hora para outra, perdi o viço. Seria culpa dos novos vícios? Cafés demais, vinhos demais, açúcar demais, fast food demais, sono de menos. Talvez sim. O combo todo errado de tudo que não deve ser feito; o nó emaranhado num comodismo disfarçado.


Envelheci por preguiça.


Preguiça de me olhar com zelo, preguiça de me mimar com boa comida, preguiça de encarar a verdade e buscar energia para o recomeço. Uma verdade sobre os recomeços: eles envelhecem. Eu virei um clichê ambulante, a personificação de alguma música do Engenheiros do Hawaii que sequer lembro o nome, mas sei cantar no banho: Eu que não fumo queria um cigarro. Eu que não amo você. Envelheci dez anos – ou mais – nesse último mês. De verdade, só o amor – não amo mesmo você.


Fico aqui rodando sem saber onde ir. Todos os lados tem espelhos demais, apontando verdades que são difíceis de engolir. Mastigo a contra gosto e engulo com algum mínimo esforço. Encaro meus olhos verdes-castanhos-estranhos e eles carregam zombaria; apontando o dedo de cílios tortos para mim.


Ri. Rimos. A gargalhada maltrata o estômago cheio de café. O peito se funde nalgum sonho esquisito e as costas doem, mas ignoro.


Envelheci. Enruguei. Murchei.


Será que quando nascer primavera, florescerei outra vez?

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