UM ENCONTRO TACITURNO

A noite estava comumente quente. Cansada do remexer em casa, resolvi sair para um passeio, apenas para admirar as luzinhas que se vestem de estrelas todos os natais. Fazia-me bem essas cores repetidas, verde, vermelho, amarelo. Verde, vermelho, amarelo. O Natal me faz bem, o clima me é favorável, distraindo com distinção todos os pensamentos maldosos e indesejáveis que flutuam na cabeça. E eu tinha muito o que distrair, muito o que “des-pensar”.

Fiquei observando as luzes por um tempo interminável. Passava da meia noite, os bares e boates estavam cheios, apesar do calor. Sempre as mesmas músicas, os mesmos rostos, as mesmas pessoas e mesmíssimas bebidas — e eu já estava cansada de mesmices. Passei batida por cada porta convidativa, preferindo a solidão da companhia da noite do que a rotina incomodada de sempre.


O sorriso dele flutuava em minha mente e obriguei-me a sorrir em resposta. Era uma boba, anônima, caminhando a passos lentos por esquinas quaisquer. Havia tempo demais que não o via, mas ainda sim, não o esquecia. Ele pulsava fresco na minha memória. E continuei nessas lembranças de um passado. Quanto tempo fazia? Dois anos? Um pouco mais? A saudade roía nas bordas, suportável e gostosa, como toda saudade de tempo bom.


Parei de supetão ao avistar.


Ele estava sentado, cabisbaixo e cintilava algo em seu rosto. Não... Era fruto de minha imaginação, claro. Como ele, logo ele, estaria ali? Eu devia estar ficando louca! Mas, aproximei-me. E para minha surpresa, era ele mesmo. Aquele por quem suspirei por anos e aquele por quem ajudaria os anos que se seguissem. A lágrima cintilava em seu rosto triste e admirei-me ao vê-lo chorar. Era a primeira vez.


Sentei ao seu lado, ele apenas inspirou fundo uma vez, relaxando em seguida. Os olhos permaneceram fechados, mas ele relaxou. Sempre igual, pensei. Foi natural, ele abrindo os olhos para ver quem era. Seus olhos roubaram as estrelas do céu quando me viu. Eu sorri, tímida.


— Você parece triste, moço. — Natural, como se ele me fosse desconhecido e ao mesmo tempo como se não tivéssemos nos separado por anos.


Ele me sorriu de volta. Seu melhor sorriso, escondendo a tristeza em uma máscara irreconhecível aos olhos de muitos, mas não aos meus. Eu o conhecia muito bem para saber das verdades por trás de seu sorriso sedutor.


— A vida é triste, menina. Nem tudo acontece como queremos e, às vezes, é tarde demais para se arrepender. — O pesar era intenso em sua voz — A palavra que nunca mais será dita, o perdão que não será dado e o sentimento eterno de culpa que corrói...


– Besteira tua, rapaz. Ninguém pode sentir rancor para sempre, de alguém de sorriso tão lindo e lágrimas tão sinceras. Esvai-se, no instante feito. Não há com que se preocupar, a vida ainda continua...


Aproximei-me mais e calei sua agonia com um beijo.


(...)

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