Um sarau na cozinha

Atualizado: 8 de Dez de 2020

Estava quebrada. Não fazia ideia do tanto de caco que era até esbarrar na tua leveza de viver. Foi um encontro bonito. Se fecho os olhos consigo sentir o gosto da paz pinicar na ponta da língua. A pele ainda arrepia algum toque certeiro, mas o coração incha uma saudade estranha, quase melancólica.

Houve um tempo que a cozinha era transformada num sarau. Entre panelas, beijos e risadas, as paredes ecoavam alguma música cheia de teatro, alguma rima rascunhada e pontas soltas. Sempre ficavam algumas pontas soltas para voltar e amarrar depois, desenhando outro laço cheio de nós. Era de uma leveza tão bonita que, se fecho os olhos, me vejo a bailarina que ilustrava tua voz. O riso ainda pende no canto da boca, mas tem o gosto salgado do rio que escorre o rosto.


Lembro todas as vezes me vi desmontar e remontar entre teus dedos. Acho que, sem querer, fui me aproveitando das vezes que me despedacei para me colar com mais cuidado. Eu era um caco, mas meio disforme. Na tua mão, fui tomando algum formato bizarro — mas encaixava. Se fecho os olhos consigo ouvir meus pedaços caindo no chão. O suspiro ainda ecoa no ouvido, mas o silêncio vem periódico também.


Venho fechando os olhos com frequência. Vezenquando na tentativa de revisitar memórias bonitas; vezenquando só para calar a vontade que grita. Voltei a engolir algumas palavras; outras deixo escapar pelos dedos, em arquivos que não salvo. Transformo o dito em lixo.


E fecho os olhos.


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