VALSA NO OITAVO ANDAR

Com luzes indiretas e o rosto em meia sombra, ele sorria. Tinha olhos de volúpia: pupilas dilatadas, respiração acelerada — um contraste gritante com a paciência comedida que tinha ao envolver. O toque era urgente, porém cadenciado. Tudo nele vibrava extremos. Era uma mistura agridoce de ver.

A vela bruxuleava tímida. O vento gelado esgueirava pelas frestas minimamente abertas da janela e brincava com a chama, ameaçando sem assustar. O frio foi caindo das paredes, que esquentavam gradativas. Tudo parecia incendiar sob o fraco fogo que tremia...


O tecido abraçou dois corpos. Sedentos, cedendo ao frio que aquecia. Peça por peça, as roupas foram espalhadas pelo chão. Fez-se inferno no meio de uma madrugada invernal. A pressa expulsava o pudor pelos poros. Mãos, braços, pernas se misturaram num nó só. Unhas rabiscaram tatuagens, dedos apertaram carne e o que era leve feito valsa, virou um samba batucado de carnaval.


Olhos nos olhos, cabelos soltos.


O vento que esgueirava pelas frestas arrepiava a pele quente como um respiro bom. A vela ditava o tom. E tudo evaporou feito poeira, bordando meia dúzia de riso e carinho nas almofadas amassadas sem querer.


Um beijo e um gole de vinho.


A vela, tímida, ainda não ameaçava morrer.

O vento, frio, ainda não ameaçava parar.

E os corpos — quentes, afoitos, cansados e cheios de segredo — ainda tinham fôlego para dançar...


Fez-se valsa no oitavo andar.

~ mafê probst | @mafeprobst

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