VOU NEGANDO AS APARÊNCIAS

Senti tua falta eram quase quatro da manhã.


Eu bebia outra dose de gin tônica e mordiscava o gelo por pura mania. O ambiente esvaziava na mesma velocidade que meu copo: urgente. A banda ainda tocava alguma melodia triste, cavoucando o baú do sertanejo raiz que emocionaria meu pai; mas me fazia beber em demasia. Era a hora. Quase quatro da manhã. O rapaz de cima do palco puxou um banquinho, baixou o chapéu e evocou o hino. Ergam os copos, disse ele. E num coro desafinado de copos para o alto, o bar se encheu das verdades que todo mundo finge esconder debaixo do tapete.

Negando as aparências e disfarçando as evidências, senti minhas cordas vocais doerem de tanto gritar. Eu cantava a música como pede o figurino: um copo meio cheio, apontando para o céu; a mão sobre o peito; olhos bem cerrados e a voz uma oitava acima, desafinada, estridente, dolorida. Balançando o corpo de um lado para o outro, entoava o hino como um mantra, deixando escapar meias verdades que não assumia nem para o espelho.


Ali, quatro da manhã, berrando torto, senti tua falta. Com os fechados, evocava tua imagem na memória e mordiscava algum sorriso sincero. Eu negava o meu desejo; desejava o teu beijo e te dava o meu corpo pra você fazer o que quisesse de mim. Virei a taça de gin para outro beijo gelado, melado de lembrança.


Eram quatro da manhã. Na madrugada quente de uma temporada que inicia, despertei. “Pesou em quem?”, me perguntaram, quando abri os olhos para seguir. “Ninguém”, murmurei, entredentes, com olhos brilhando vontades.


Eram quatro da manhã. E eu senti tua falta.

Merda.

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